terça-feira, novembro 09, 2004

MIGUEL ESTEVES CARDOSO NUNCA ESCREVEU BEM SOBRE MÚSICA

Miguel Esteves Cardoso, conhecido como MEC nos circuitos da escrita, escreveu hoje, na sua coluna semanal no semanário Blitz, que Elvis Costello nunca escreveu uma única grande canção na sua vida. Isto coincide com a revelação extraordinária que o IM faz: Miguel Esteves Cardoso nunca escreveu bem sobre música uma única vez na sua vida.
Durante vários anos, acreditou-se que MEC era dos mais importantes escribas musicais de Portugal, tendo sido muito influente e o camandro. Hoje o IM revela, em primeiríssima mão, que não.
O IM nunca disse bem de MEC, mas também nunca disse mal deste. O IM gosta muito do homem, com boas razões. É inteligentíssimo; generoso; trabalhador; criticamente acutilante; tem um gosto musical que se pode seguir fielmente; é inegavelmente simpático; deve dar um bom amigo.
A tragédia dele é escrever; é analisar; é criticar. Cardoso é um dos raros exemplos de uma pessoa extremamente talentosa que escolheu a profissão errada. Poderia ter sido (ainda poderá ser) um grande carpinteiro; um grande estofador; um pai natal daqueles que usam barba postiça e falam com as crianças em grandes superfícies comerciais.
A verdade é que, por muito que esmiuce e tolere, Miguel Esteves Cardoso nunca escreveu uma única grande crítica de música.
Definamos a grande crítica segundo a bitola mais alta: uma que outras não só queiram plagiar como seja aberta a várias interpretações, cada qual delas coexistindo com as outras que a conseguiram capturar sem se submeterem a ela, podendo marcá-las com cada personalidade. Enfim: as críticas que Miguel Esteves Cardoso admira, com toda a razão e todo o amor.
Eu estava em Freixo de Espada-à-Cinta, uma simpática terreola algures em Portugal, quando li Miguel Esteves Cardoso pela primeira vez. Eu tinha um amigo bêbedo, chamado Zé Manel, um poeta e canalizador que estava a fazer uma tese de doutoramento sobre o vinho verde da Beira Interior e vivia numa casa podre lá em Freixo de Espada-à-Cinta que eu partilhava, rodeado por fracos de álcool puro, sulfato de anfetamina, babitúricos proibidos, Mateus Rosé e edições antigas da revista Gina.
Adorava o homem. Daí ter ido a casa dele, onde bebi uma vinhaça do caraças e arrotei. Foi a filha dele, uma feiosa de bigode, com os seus 15 anos, que me mostrou pela primeira vez um texto de Miguel Esteves Cardoso.
Era um texto sobre os Joy Division e eu deveria ter adivinhado logo ali o que iria tornar-se no hábito de quase duas décadas: Miguel Esteves Cardoso desilude. Quer mas não pode. Tem todas as ideias correctas e entende-as profundamente mas não as consegue pôr em prática. Quando usa as mãos para escrever, estraga-as e desonra-as. O moço é um desastre, como o laçarote.