domingo, novembro 14, 2004

RUFUS WAINWRIGHT VISTO POR MARGARIDA REBELO PINTO

O Lourenço já lá estava há meia-hora. Foi aí que comecei a suspeitar. Ele estava demasiado bem vestido para um concerto daqueles. Tinha um fato Armani preto com uma camisa branca. Eu usei aquele vestido da Prada que comprei em Roma no verão.
O Lourenço vinha de Cascais. O BMW dele tinha acabado de ser lavado. Conheci-o num daqueles jantares chatos que as minhas amigas fazem quando passam a barreira dos 40. Gostámos logo um do outro. Ele tinha uma camisa azul, eu tinha uma saia azul. Fomos feitos um para o outro, soubémos logo.
Penso que não tenha sido a melhor escolha que fiz na vida, na minha primeira saída com ele, ver um concerto de um homossexual. Mas o meu horóscopo dizia-me para ser tolerante esta semana.
Entrámos na Aula Magna. O José tem feito um óptimo trabalho naquela reitoria. Tenho de marcar na minha agenda um dia para ir ver a peça dele, "Fungagá da Bicharada". Apesar da barba, ele é um homem mais velho muito atraente. O concerto começou a horas. O Rufus Wainwright é muito giro. Não fosse ele gay e eu teria ido cumprimentá-lo depois do concerto.
O homem sentou-se ao piano. Cantou. Tem uma voz gira, mas não gostei da forma como estava vestido. A t-shirt que usava não era muito bonita. Gostei das calças de ganga, estão na moda. Mas, ao contrário daquilo que muita gente pensa, eu sou a favor da combinação t-shirt+blazer. É muito bonito hoje em dia. Mas só em celebridades, nunca em comuns mortais.
As canções do Rufus são bonitas. Nota-se que nunca morou numas águas-furtadas no Chiado, mas ele tem uma boa experiência de vida. Fala muito em Manhattan, e era em Manhattan que se passava a série "Sexo e a cidade", por isso só pode ser boa pessoa.
O Lourenço estava a gostar demasiado. Quando saímos do concerto, ele quis ir cumprimentar o artista. Estávamos nas doutorais, não íamos misturar-nos com a ralé. Sugeri-lhe esperarmos até que toda a gente já tivesse saído, mas não. Ele não quis. Vimos o Rui Veloso, estava giríssimo.
Não gostei do concerto do Rufus. Fez-me perceber que o Lourenço vestir-se bem não era um sintoma de metrossexualidade. Fui para casa muito triste, ainda tentei telefonar ao Salvador, que me contactou após o meu último artigo, mas ele tinha outras coisas para fazer. Foi então que vi o Pablo. O Pablo é italiano. Gostei muito dele, fomos para casa juntos. Às vezes há certos maus acontecimentos que nos fazem perceber quem são as pessoas das quais gostamos realmente.