quinta-feira, abril 14, 2005

EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN SEGUNDO MARGARIDA

O Carlos era moreno, eu gostava dele. Conheci-o um dia destes no Lux. Ele é que me convidou. O CCB é um espaço muito querido para mim, eu luto muito pela cultura e acho que não há coisa melhor que o CCB. Estive lá na inauguração a beber daiquiris e a olhar para o Salvador. Salvador...que memórias me traz aquele Grande Auditório...mas é passado, está tudo no passado. Ele passou por minha casa às 8, de táxi.
Estou com obras nas minhas águas-furtadas no Chiado. Todos os dias os homens das obras fazem barulho. É uma coisa muito má. Estou farta. Já não me lembro das aulas de alemão. Por isso, quando o Carlos me convidou para ver os Einstürzende Neubauten, nem estranhei. Até achei bem, sair de casa a uma terça-feira à noite para escapar ao barulho das obras. Às 8 e meia já estávamos à porta do CCB, para cumprimentar as pessoas todas. Foi aqui que aconteceu a minha primeira desilusão, não encontrei ninguém que conhecesse. Era só gente esquisita. Gente vestida de uma maneira esquisita. Uma coisa é a Moda Lisboa, e na passerelle toda a gente é bonita, mas ali no mundo real não.
Lá fui eu, de mão dada com o Carlos. Entrámos na sala, sentámo-nos. No palco estavam compressores de ar amarelos. Estranho, muito estranho, mas não fazia mal. O Carlos é mesmo muito bonito e tem um corpinho de sonho, por isso não achei mal a estranheza. Lembrou-me os tempos da FLUL, toda a gente era assim naquela altura. Lutei tanto tempo para esquecer isto, tanto, tanto tempo...mas o Carlos era mesmo muito bonito e por isso não fazia mal.
A dada altura entram uns alemães em palco. Velhos, muito velhos, o cabelo do homem da frente era muito esquisito, mas bonito. Gostei dele. O senhor que estava do lado direito dele não era muito bonito e tinha uma camisa interior. Lembrou-me o meu tio Zé, alguém que eu queria esquecer. Anos e anos de aulas de etiqueta e de homens para esquecê-lo...foi aí que me apercebi do óbvio: estes homens em palco nunca compraram roupa na Prada. Não vão a Paris aos saldos. Não é com eles que quero passar uma noite, mas o Carlos...o Carlos era tão bonito...
Foi um concerto de memórias. Lembrou-me a minha infância, a minha adolescência, a faculdade. Tudo aquilo mau que fez de mim aquilo que sou hoje. E não foi só isso. Os homens batiam em metal, faziam muito barulho, e eu queria era escapar das obras. Escapar do barulho do Chiado, da Lisboa que amo mas que farta. Eles diziam coisas que eu não percebia, o meu alemão já vai longe e o meu inglês só para dar títulos aos meus livros.
Tocaram durante muito tempo, aquele barulho insuportável só me deixava olhar para a cara do Carlos. O Carlos era tão bonito, e valia tanto a pena. No intervalo de 20 minutos entre as duas partes do concerto tudo se desmoronou à minha volta. Aconteceu. O Carlos revelou-me o grande segredo. Bem, não chegou a revelar, fui eu que descobri, e isso acabou com tudo. Morreu ali a paixão. Estávamos a conversar e eu pedi para ver a fotografia do bilhete de identidade dele. Ele tirou a carteira e tinha lá dentro um cartão LisboaViva. O homem nem carta de condução tem. Não tem carro, não tem dinheiro. Vi melhor e estava lá o nome completo dele. O Carlos chama-se Carlos Manuel. Passei a segunda hora do concerto chateada com ele, e logo que houve oportunidade saí.
Alemães velhos e homens sem dinheiro e nomes estranhos. Não quero mais isto. Odeio Belém, lá perdi um homem e voltei ao passado. Isso é muito, muito mau. Apanhei um táxi, demorei imenso tempo para encontrar um, e voltei para o Chiado. As minhas águas-furtadas podem estar em obras, podem ser barulhentas, mas aqui não existem alemães, só imigrantes de Leste mal pagos. E são minhas. As águas-furtadas são minhas.